sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Mapa revela segregação racial no Brasil

Como sabem, estou procurando minhas raízes. Pelas minhas contas (sorry, sou de humanas ^^), meu bisavô pode ter nascido por volta de 1910. E seu pai devia ter seu registro de "bem material" de alguém para trabalhar no cultivo de cana-de-açúcar, a mineração do ouro e a cultura cafeeira que eram o motor da economia mineira, onde nasci.

O Nexo Jornal publicou hoje um infográfico muito didático sobre a segregação racial no Brasil. Ajuda a entender muita coisa sobre o lugar que os negros ocupam ainda hoje em nossa sociedade.

Reprodução Site Nexo Jornal


Como a história explica a divisão norte-sul do Brasil?

Notou algo olhando para esse mapa? O Brasil parece dividido ao meio, sendo uma parte composta pelas regiões Sul e Sudeste, formada majoritariamente por brancos; e outra composta por Norte, Nordeste e Centro-Oeste, com maior presença de pardos e pretos. O histórico escravocrata (que concentrou escravos principalmente no Nordeste, Minas Gerais e Rio de Janeiro dado o cultivo da cana-de-açúcar, a mineração do ouro e a cultura cafeeira), a presença da capital no Rio de Janeiro (até 1960), a entrada dos imigrantes europeus e a concentração da industrialização no Sul e Sudeste são todos fatores que contribuem para essa divisão. Não por acaso, as capitais dos Estados dessas regiões são também as mais segregadas – Porto Alegre (RS), Vitória (ES), São Paulo (SP), Belo Horizonte (MG), Rio de Janeiro (RJ), Florianópolis (SC) e Curitiba (PR) estão entre as oito capitais que lideram o ranking de segregação elaborado pelo Nexo.

Vale a pena conferir o infográfico completo aqui.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Alô, Congado!

Hoje foi um dia de muitas ligações. Como ontem descobri que meu bisavô, Seu Geninho, era mestre de Congado em Divinópolis, hoje passei o dia tentando saber qual a Irmandade ou Reizado. Mas sem muito sucesso...
Pra quem não sabe, O congado que também é conhecido como congo ou congada, é uma manifestação cultural e religiosa de influência africana celebrada em algumas regiões do Brasil, principalmente no estado de Minas Gerais (onde nasci). Você pode ler mais clicando aqui.

Percebi então que a saga será maior do que imaginei. Por isso decidi criar o blog, pra organizar minha saga e facilitar, de alguma forma, a saga de quem se interessa em desenterrar sua história.

Então... As únicas informações que tenho até agora são:


  • Meu bisavô se chamava Eugênio Rosa
  • Pelas minhas contas (Meu pai nasceu em 1953), ele pode ter nascido por volta de 1910
Foto: Arquivo Ronaldo Carmo
Numa primeira busca, achei info da existência da Congregação dos Congadeiros de Divinópolis, a CONGADIV. E isso é tudo. Não tem página no Facebook, nem site. Nada dessas facilidades adoráveis.

Então.... liguei na Secretaria de Cultura da cidade. 3x. Porque só o Senhor Geraldo Tomé tem o telefone da CONGADIV e conhece o presidente, Sr. Ronaldo Carmo. Mas o Geraldo estava na rua e só tem o telefone anotado na agenda, que ficou na Prefeitura. Pediu pra eu ligar amanhã.

#Oremos!

E a saga continua...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mais uma descoberta: Biso era mestre de Congado em Divinópolis

Estou em um processo de imersão pra saber da minha história. Gentes... como é difícil! Procurando sobrenomes, certidões... Acabei de saber que o meu bisavô, que cuidou do meu pai quando ele ficou órfão, era mestre de Congado em Divinópolis (MG). Mas não sei (ainda!) de que Irmandade! Emoticon frown
EU NUNCA TINHA OUVIDO FALAR DO SEU GENINHO (apelido para Eugênio Rosa)! Ele criou meu pai desde os 10 anos. Meu pai morreu eu tinha 12. Estas histórias nunca chegaram em meus ouvidos Emoticon unsure
Que sentimento mais estranho esse negócio de ter saudade de gente que nunca vi, de histórias que nunca ouvi, de lugares que nunca fui.

Sigamos na busca!

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Olha, eu sou da pele preta: graças a Deus

Foto: Fernando Oliveira - 2013
(Obs: Texto publicado com data retroativa à 31 de julho de 2014)
Há um ano e seis meses, resolvi recomeçar a vida. Balzaquiana, decidi cortar todo o cabelo e me conhecer e reconhecer como mulher negra. Foi resultado de longos estudos sobre identidade, história, negritude. Seria um gran finale de aceitação.
     
Foram meses lendo sobre textura, tratamentos, cronogramas capilares etc. Era um mundo que eu não fazia ideia de que existia. Primeiro entrave: como escolher os tratamentos/produtos adequados ao meu cabelo se eu não conhecia meu cabelo? Nas leituras, descobri que existem cabelos de 2A até 4C. Mas qual era o meu tipo? Eu não fazia ideia. Eu precisava saber qual era pra saber como criar meu cronograma capilar e aprender a hidratar, nutrir e reconstruir a massa do cabelo para mantê-lo saudável. E aí, diante da minha decisão, ouvi duas perguntas: “Isso é caro? Vai dar mais trabalho?” Oras! Caras e trabalhosas eram as escovas progressivas para alisar os cabelos!
     
Alisei os cabelos pela primeira vez – ao que me lembro – lá pelos 8 ou 9 anos, com a então famosa e maldita “touca de gesso”. Lembro de ter me sentido absolutamente ridícula em ficar com cabeça “engessada” por mais de uma hora. Era uma coisa fedida, que deixou meu couro cabeludo vermelho e sensível durante uns dias. Desde então, a cada três meses, lá estava eu de volta, para “domar” aqueles insistentes cabelos que me tiravam o sossego – e a beleza.

Foto de Arquivo Familiar
Beleza: tá aí uma coisa que “nunca tive”. Sempre me achei muito feia. Magra, “cabelo duro”, espinhas, “moreninha”. Tudo pra ser preterida. E assim foi por muito tempo. Lembro com clareza de quando chegou a época da formatura da oitava série e precisavam ser formados pares para a cerimônia (não vou entrar no mérito dessa convenção social machista agora). Lembro que eu tinha um grupo de amigos, e nenhum deles quis entrar comigo na tal cerimônia. Ouvi um deles falando: “prefiro a Eduarda. Mais bonita”. Eduarda, com seus longuíssimos cabelos lisos e branquinha, era mais bonita. Claro. Hoje entendo a beleza de Eduarda. E a minha. Lembro ainda uma outra vez em que eu estava varrendo a varanda de casa e uma pessoa, procurando por minha mãe – que é branca e viúva de um negro – perguntou se “a dona da casa estava”. Cada qual no seu lugar, certo? Errado.

ANTES “MORENINHA”. AGORA, NEGRA E…. GAY?
       
Pixaim, palha de aço, Bombril, vassoura, leoa, sarará, cabelo duro, cabelo ruim, piaçava. Ouvi isso a vida inteira, mesmo depois de alisar o cabelo, já que ele, mesmo alisado, não tinha a aparência adequada, de naturalmente liso. Mas, aleluia, um dia chegou o dia do Big Chop (“BC” para os íntimos), a hora de cortar tudo. Eu estava tão ansiosa que não aguentaria passar pela transição, forma como muitas meninas conseguem manter o cabelo alisado até ter o tamanho suficiente de cabelo natural pra não precisar cortar “Joãozinho”.


Foto: Anderson França - 2012

Pois eu cortei “Joãozinho”. E ganhei mais um rótulo imediatamente. Passei a receber olhares, questionamentos sobre minha sexualidade e até vivenciei a homofobia, quando um homem bradou: “isso é uma pouca vergonha! É culpa do Lula e do politicamente correto a gente ter que ver isso!”. Eu estava tomando um suco com uma amiga – também de cabelos curtos – numa lanchonete perto de casa. Peguei uma cadeira para “educa-lo”, mas fui contida. Melhor assim.

ACEITAÇÃO: UM ATO POLÍTICO.
   
 “Será que você consegue um namorado agora, com esse cabelo?”, “será que consegue um emprego?”, “sua criança vai sofrer bullying na escola?”. Não vou dizer que não pensei nestas coisas. Mas vou dizer que pensei mais nas respostas. Eu gostaria de me relacionar com alguém que me avaliasse e me desejasse de acordo com meu cabelo? Eu gostaria de trabalhar num lugar em que a capacidade das pessoas fosse medida pelo cabelo? Eu matricularia minha criança em uma escola que mandasse cortar o cabelo, como um uniforme? Eu me submeteria ao racismo? Eu realmente quero me retirar destes debates e me recolher ou quero lutar com as pessoas pela garantia de direitos de todos e pela mudança desse cenário medíocre e criminoso?
       
As respostas a essas perguntas são políticas. Somos seres políticos. Existir é um ato político. Existir como mulher negra é um duplo exercício de luta pela cidadania e plenitude de direitos. Deixar seu cabelo pro alto, no lugar onde você decidiu que ele deve estar, é uma afronta. Uma afronta à “ordem natural das coisas”, onde o negro tem seu lugar muito bem delineado – um lugar num cantinho, mais ao lado, mais na cozinha, um segundo lugar. Uma afronta ao Estado Brasileiro, que teve uma política oficial de branqueamento de seu povo, focando na miscigenação e no estabelecimento de uma população morena. Negra não. Esta coisa ruim tinha que ser apagada.

Foto: Fernando Oliveira - 2013
Aceitar-se é uma afronta a um Estado cuja polícia federal exige que se prenda os cabelos para ter direito a tirar umdocumento. Afronta a um Estado que mata majoritariamente negros. Afronta a um Estado cujos cargos de chefia são ocupados em sua esmagadora maioria por homens brancos, que ganham 36% mais que os homens negros e 47,8% mais que as mulheres negras. Eu nasci pra afrontar esse Estado, pois nascer e viver sob esse Estado é uma afronta.

RACISMO SEM FIM
     
Como esperar que uma criança não reproduza o racismo ou se acostume a sofrê-lo se ela não reconhece ao seu redor negros em posição que não seja subalterna? Como isso é possível sem que sequer haja bonecas negras pra brincar, bonecas com sua cor, seu cabelo, sua boca e nariz, sua identidade e que mostrem à criança que ela é bela e merece ser copiada?
     
Como ser negro pode ser algo bom, não depreciativo, se pessoas da sua cor sequer aparecem no cinema, se não têm representatividade? Quantos negros protagonizam novelas que se passam no Leblon, são ricos, patrões, tem casas bonitas na beira do mar (protagonistas de senzala, em novelas de época não contam)?  Mulheres negras no cinema praticamente não existem, mesmo que nós sejamos 52% da população feminina do país.

NÃO PASSARÃO!

Nós, mulheres e homens negros, construímos este e outros países. Carregamos o Brasil nas costas ainda hoje, mesmo ganhando bem menos pra isso e morrendo mais cedo e em maior número. Mas aprendemos a resistir e, a cada dia, aprendemos a peitar aqueles que acham que aqui não é nosso lugar. Nós vamos lutar para viver mais e melhor e vamos ensinar nossos filhos que nosso cabelo, nosso nariz, nossa pele são as características da liberdade e da resistência e que temos, sim, direito a um lugar ao sol.

Cabral: Um exemplo óbvio de racismo estrutural brasileiro

Nós, mulheres negras, vamos continuar procriando, mesmo que governadores brancos nos chamem de “parideiras demarginais”. Nós vamos afrontar este Estado e mostrar que nosso lugar não é na cozinha.


(O título do texto é uma alusão à música Cabelo Pixaim, de Jorge Aragão.)